Sobre a Criação

A Criação do Mundo segundo o Candomblé: Orixás, forças sagradas e a origem da existência

Oduduwa Descends the Iron Chain · Hitchhiker's Guide to Religion

A Criação do Mundo, segundo o Candomblé, está relacionada a um conjunto de narrativas sagradas de origem africana que explicam o surgimento do Universo, da Terra, dos seres humanos e de todas as forças que sustentam a vida. Essas narrativas fazem parte de tradições transmitidas de geração em geração, especialmente entre os povos iorubás, cujos conhecimentos influenciaram profundamente o Candomblé de tradição Ketu no Brasil.

É importante compreender que não existe uma única narrativa da Criação compartilhada por todas as tradições do Candomblé. Os relatos podem apresentar diferenças conforme a nação, a linhagem religiosa, os ensinamentos dos mais velhos e os itãs — narrativas sagradas que preservam a memória e a sabedoria ancestral.

A seguir, apresentamos uma explicação da Criação com base principalmente em narrativas iorubás presentes na tradição Ketu, destacando as divindades e as forças que participam desse processo.

1. Olódùmarè ou Olorum — A Origem Suprema de Toda a Existência

Olodumare: The Supreme God That Powers The Orishas

No princípio de muitas narrativas iorubás, antes da organização do mundo como o conhecemos, existia a realidade divina associada a Olódùmarè, também chamado Olorum em muitas expressões religiosas brasileiras.

Olódùmarè representa a fonte suprema da existência, o princípio do qual procedem a vida e as forças sagradas. É associado ao poder de criar, sustentar e ordenar o Universo.

Na concepção religiosa iorubá, os Orixás não são simplesmente personagens de uma história: são divindades vinculadas às forças da natureza, aos princípios da existência e às relações entre o mundo visível e o invisível.

Em diversas narrativas, Olódùmarè determina que a Terra seja formada e confia aos Orixás responsabilidades relacionadas à realização dessa obra.

Assim, a Criação não é entendida apenas como o aparecimento de matéria, mas também como o estabelecimento de uma ordem que permite a existência, o crescimento, a transformação e a continuidade da vida.

Significado espiritual: Olódùmarè representa a origem suprema e o poder criador que sustenta a existência.

2. Òrun — O Plano Espiritual

Orun (Heaven) - African Pantheon (Yoruba) Location | Mythos Atlas

Antes de compreender o surgimento do Aiyê, é necessário conhecer o conceito de Òrun.

Na cosmologia iorubá, Òrun é o domínio espiritual, associado às divindades, aos ancestrais e às realidades que não se limitam ao mundo material. Sua relação com o Aiyê é fundamental para compreender a existência como uma realidade que abrange tanto o visível quanto o invisível.

O Òrun não deve ser interpretado necessariamente como um céu físico situado acima das nuvens. Trata-se de uma dimensão cosmológica e espiritual, cuja compreensão varia conforme as tradições.

É nesse contexto que se encontram Olódùmarè e os Orixás, de onde partem, em diferentes narrativas, as determinações e as forças envolvidas na organização do mundo.

Significado espiritual: Òrun representa a dimensão espiritual da existência e sua ligação com o mundo material.

3. Aiyê — O Mundo Material

Mitologia Yoruba: Orixás, Cosmogonia e Influência no Brasil

Aiyê é o mundo em que vivemos: a Terra, a natureza, os animais, as plantas e a humanidade.

Na cosmologia iorubá, Òrun e Aiyê são dimensões relacionadas. A existência humana não está isolada do sagrado, pois as forças divinas se manifestam na natureza e participam do equilíbrio da vida.

Em narrativas sobre a Criação, a formação do Aiyê representa a passagem de uma condição primordial para um mundo organizado, capaz de abrigar os seres vivos.

A Terra, portanto, não é apenas um espaço físico. Ela é também um território sagrado, no qual se estabelecem as relações entre os seres humanos, os Orixás, os ancestrais e os elementos naturais.

Significado espiritual: Aiyê é o espaço da existência material, da experiência humana e da manifestação das forças da natureza.

4. Òrìṣàlá ou Oxalá — A Missão de Organizar a Terra

Terry Ariia James on Instagram: "Obatala is one of the most revered orishas in the Yoruba spiritual tradition, symbolizing wisdom, purity, and peace. Known as t… | Orixá, Orixas xango, Umbanda

Oxalá, conhecido em diferentes tradições iorubás por nomes como Òrìṣàlá e Obàtálá, ocupa uma posição central em muitos relatos da Criação.

Em uma das narrativas tradicionais, Olódùmarè confia a Oxalá a missão de descer e preparar a Terra para que ela possa ser habitada.

Para cumprir essa tarefa, Oxalá recebe os elementos necessários à realização da obra divina. Em versões conhecidas, esses elementos incluem uma porção de terra, uma ave e um recipiente ou instrumento utilizado para transportar a matéria primordial.

Ao chegar ao espaço destinado à formação do mundo, a terra é colocada sobre as águas primordiais. A ave espalha essa terra, ampliando a superfície e formando o terreno que dará origem ao mundo habitável.

Esse relato possui diferentes variantes. Em algumas, a responsabilidade pela formação da Terra é atribuída diretamente a Odùduwà, enquanto Oxalá aparece em outras etapas da Criação ou da formação dos seres humanos.

Por isso, é importante não apresentar todas as versões como se fossem uma única narrativa imutável.

Oxalá está associado à criação, à ancestralidade, à brancura ritual, à serenidade e à formação da humanidade em diversos ensinamentos religiosos.

Significado espiritual: Oxalá representa, em muitas tradições, a força divina responsável pela formação, pela organização e pela criação dos seres humanos.

5. Odùduwà — A Formação e a Consolidação da Terra

155. La creación según los Yoruba (Mito Africano)

Odùduwà ocupa um lugar importante em diferentes narrativas iorubás relacionadas à origem da Terra e à constituição da humanidade.

Em uma conhecida versão da Criação, Odùduwà é aquele que desce ao espaço primordial e realiza a formação do terreno, espalhando a terra sobre as águas. A ave auxilia a distribuir essa matéria até que se forme uma superfície capaz de sustentar a vida.

Essa narrativa é especialmente importante porque explica como a Terra, inicialmente associada às águas primordiais, se transforma em um lugar habitável.

Em outras tradições e interpretações, Odùduwà também está associado à origem de linhagens, à ancestralidade e à formação da sociedade iorubá, incluindo narrativas ligadas à cidade de Ilé-Ifẹ̀.

A relação entre Oxalá e Odùduwà varia de acordo com os relatos. Não é adequado reduzir essas tradições a uma disputa simples entre duas divindades, pois os mitos apresentam diferentes atribuições, funções e sentidos religiosos.

Significado espiritual: Odùduwà representa, em determinadas narrativas, a formação da Terra, sua consolidação e os fundamentos da vida coletiva.

6. Èṣù ou Exu — A Comunicação, o Movimento e a Realização

Orixá Exu :: Behance

Exu é uma das divindades fundamentais para compreender a dinâmica da existência no Candomblé.

Embora nem todas as narrativas da Criação atribuam a Exu uma participação direta na formação física da Terra, sua importância para a organização do mundo religioso iorubá é essencial.

Exu está relacionado aos caminhos, à comunicação, ao movimento, às trocas e à ligação entre diferentes domínios da existência. É também associado à realização das oferendas e à circulação do axé, conforme os ensinamentos de cada tradição.

Uma Criação que estabelece a existência dos seres, mas não permite a comunicação, o movimento e a transformação, seria uma realidade sem dinâmica.

É nesse sentido que Exu ocupa um lugar indispensável na compreensão do mundo: a existência precisa de caminhos, relações, escolhas e movimento para continuar se realizando.

Exu não deve ser confundido com o diabo da tradição cristã. Trata-se de uma divindade africana com atributos próprios, cuja interpretação religiosa foi historicamente distorcida por processos de demonização.

Significado espiritual: Exu representa a comunicação, o movimento, a abertura dos caminhos e a dinâmica pela qual a existência se transforma.

7. Ògún ou Ogum — O Ferro, a Tecnologia e a Abertura dos Caminhos

Ogún - Orisha del hierro, la fuerza y el trabajo en la santería

Ogum está relacionado ao ferro, às ferramentas, à metalurgia, à guerra e à capacidade de transformar a matéria por meio do trabalho.

Em muitos relatos sobre a Criação, Ogum não é necessariamente aquele que produz a Terra primordial. Sua importância aparece especialmente na organização do mundo habitável e no desenvolvimento das condições necessárias à vida humana.

A floresta precisa ser atravessada, os caminhos precisam ser abertos e os instrumentos precisam ser produzidos para que a humanidade possa se estabelecer e desenvolver suas atividades.

Ogum simboliza essa capacidade de transformar as condições naturais por meio da técnica, da força e do trabalho.

Sua relação com a Criação pode ser compreendida, portanto, como a participação na construção do mundo humano, ainda que a sequência exata de seus feitos varie conforme os itãs.

Significado espiritual: Ogum representa a força transformadora do trabalho, o domínio do ferro e a abertura de caminhos para a vida material.

8. Nanã — A Lama Primordial e a Matéria da Vida

Nana Buruku - African Pantheon (Yoruba) Deity | Mythos Atlas

Nanã é uma divindade ancestral associada às águas paradas, aos pântanos, à lama, à antiguidade e aos mistérios da vida e da morte.

Em uma conhecida narrativa sobre a formação humana, Nanã aparece relacionada à lama primordial utilizada na modelagem do corpo humano. Oxalá, por sua vez, participa da formação dos seres humanos em versões desse relato.

Essa imagem possui um profundo significado simbólico: a lama reúne a água e a terra, duas condições fundamentais para a vida.

A matéria que forma o corpo não é apresentada como algo separado da natureza, mas como parte dela. O ser humano surge vinculado aos elementos que sustentam a existência.

A relação entre Nanã, a lama e a formação humana não aparece com os mesmos detalhes em todas as tradições, mas constitui uma referência importante em narrativas conhecidas no universo afro-brasileiro.

Significado espiritual: Nanã representa a ancestralidade, a matéria primordial, a profundidade do tempo e os mistérios da origem e do retorno da vida.

9. A Água Primordial — A Condição Inicial da Formação da Terra

Oduduwa and the Creation of the Earth - African Pantheon (Yoruba) Mythology | Mythos Atlas

As águas primordiais ocupam uma posição importante em muitas narrativas da Criação.

Em determinadas versões, antes da formação da Terra habitável, havia uma extensão de águas sobre a qual a matéria terrestre seria colocada e espalhada.

A água é indispensável à existência porque está relacionada à fertilidade, à nutrição, à renovação e à continuidade da vida.

Entretanto, não devemos afirmar que todos os relatos apresentam uma única divindade responsável por criar essas águas. Elas podem aparecer como parte do cenário primordial, enquanto determinados Orixás se relacionam com suas manifestações específicas.

Entre os Orixás associados às águas encontram-se:

  • Oxum: relacionada às águas doces, aos rios, à fertilidade e à prosperidade.
  • Iemanjá: associada ao mar em muitas tradições afro-brasileiras, à maternidade e à proteção.
  • Nanã: ligada às águas paradas, aos pântanos, à lama e à ancestralidade.
  • Olokun: divindade associada às profundezas do mar em tradições iorubás, com manifestações e atribuições que variam conforme a linhagem.

Essas associações não significam que todas essas divindades tenham participado diretamente do mesmo episódio da formação da Terra. Elas representam diferentes aspectos sagrados das águas e da existência.

Significado espiritual: a água simboliza a condição primordial, a fertilidade e a possibilidade de sustentar a vida.

10. A Terra, a Fertilidade e as Forças da Vegetação

SEGREDO DAS FOLHAS: ÁRVORE SAGRADA - IROKO

Depois da formação da superfície terrestre, a vida depende das condições que permitem o crescimento das plantas, a alimentação dos animais e a continuidade dos ciclos naturais.

Diversos Orixás estão relacionados a esses aspectos da existência.

Ossain - Arte Estilo Vitral - Ideia Laser

Ossain — O Segredo das Folhas

Ossain está ligado ao conhecimento das folhas, às plantas e às propriedades sagradas da vegetação. Sua importância está na compreensão dos recursos vegetais e de sua utilização ritual e medicinal, conforme os conhecimentos tradicionais.

Oxóssi | Mitologia africana, Orixá, Oxóssi

Oxóssi — A Floresta e a Provisão

Oxóssi está relacionado à caça, às matas, à busca do alimento e ao conhecimento dos caminhos da floresta. Sua atuação representa a capacidade de encontrar os recursos necessários à sobrevivência.

Iroko Tree in West Africa | Beautiful and Majestic

Iroko — A árvore sagrada e o tempo

Iroko, cultuado como divindade em determinadas tradições, está associado à árvore sagrada, à ancestralidade e à passagem do tempo. Sua presença recorda a ligação entre a vida vegetal, o território e a memória ancestral.

Essas divindades ajudam a compreender que a Criação não se limita à formação do solo. O mundo precisa também de vegetação, alimento, conhecimento e equilíbrio para sustentar a vida.

Significado espiritual: a vegetação representa a renovação, a abundância, o conhecimento ancestral e a continuidade dos ciclos naturais.

11. Xangô, Iansã e as Forças do Céu e da Transformação

Histórias de Xangô e Iansã na Mitologia: Descubra Seus Mitos

O mundo criado não é estático. Ele é atravessado por mudanças, fenômenos naturais, movimentos atmosféricos e forças que transformam a paisagem.

Xangô está relacionado ao trovão, ao poder, à justiça e à autoridade. Iansã, também conhecida como Oyá, está ligada aos ventos, às tempestades e a determinadas manifestações dos raios e da transformação.

Essas divindades não são necessariamente apresentadas como criadoras originais do céu ou do mundo em todas as narrativas. Sua importância reside na representação de forças que atuam sobre o mundo já formado.

O trovão, os ventos e as tempestades recordam que a natureza possui energia e movimento próprios. A vida depende tanto da fertilidade quanto da capacidade de enfrentar mudanças.

Em uma compreensão religiosa, essas forças também expressam aspectos da existência humana: autoridade, coragem, transformação, equilíbrio e responsabilidade.

Significado espiritual: Xangô e Iansã representam forças de transformação, poder e movimento que participam da dinâmica do mundo.

12. A Criação dos Seres Humanos e a Presença de Ori

Obatala Sculpts Humans from White Clay · Hitchhiker's Guide to Religion

A formação dos seres humanos constitui uma etapa fundamental de muitas narrativas da Criação.

Em determinados relatos, Oxalá participa da modelagem dos corpos humanos, enquanto Olódùmarè está relacionado à concessão do princípio vital. A forma exata dessa participação varia entre as versões tradicionais.

Além do corpo, a tradição iorubá atribui grande importância a Ori, conceito relacionado à cabeça e, em sentido espiritual, à individualidade, ao destino e à orientação interior de cada pessoa.

Ori não deve ser entendido apenas como uma parte física do corpo. Na cosmologia iorubá, ele possui um significado profundo na relação do indivíduo com seu destino e com a própria existência.

Por isso, o culto a Ori, incluindo práticas como o Bori em tradições do Candomblé, ocupa um lugar relevante na vida religiosa. Os detalhes dessas práticas dependem da tradição e da orientação dos responsáveis religiosos.

A formação da humanidade, assim, não significa somente produzir um corpo. Ela envolve a existência de uma pessoa singular, dotada de identidade, destino e responsabilidade.

Significado espiritual: Ori representa a individualidade espiritual, a orientação do destino e a importância do equilíbrio da pessoa em sua relação com o sagrado.

13. O Axé — A Força que Permite a Realização da Existência

“Orisha Abata: A Tapestry of Colors, Elements, and Spirituality | by Jose Feneque, DVM | Medium

Para compreender a Criação segundo o Candomblé, é importante considerar o conceito de axé.

Axé é uma força sagrada associada à capacidade de realizar, movimentar, transmitir e sustentar a existência. Não é simplesmente uma energia física mensurável, mas um conceito religioso fundamental para compreender a dinâmica do sagrado.

O axé está presente nas relações entre os Orixás, nos elementos naturais, nos ritos e nas comunidades religiosas, conforme os fundamentos de cada tradição.

A Criação pode ser compreendida como o estabelecimento de condições para que a existência se manifeste e continue: a Terra recebe forma, a vida encontra condições para crescer, os seres humanos passam a existir e as relações entre os diferentes domínios se estabelecem.

Exu ocupa papel importante na circulação e na realização do axé, enquanto os demais Orixás expressam diferentes forças e princípios da existência.

Significado espiritual: axé representa a potência sagrada que possibilita a realização, a continuidade e a transformação da vida.

14. Síntese: Quem Participa da Criação?

A tabela a seguir reúne as principais divindades e os elementos abordados, distinguindo a origem primordial das forças relacionadas à organização e à manutenção do mundo.

Divindade ou elementoRelação com a Criação
Olódùmarè / OlorumFonte suprema da existência e do poder criador.
ÒrunDomínio espiritual relacionado à realidade divina e ancestral.
AiyêMundo material, território da vida e da experiência humana.
OxaláFormação e organização da Terra e, em determinadas narrativas, dos seres humanos.
OdùduwàFormação e consolidação da Terra em importantes versões da narrativa.
ExuComunicação, movimento, caminhos e circulação do axé.
OgumFerro, ferramentas, trabalho e transformação das condições materiais.
NanãLama primordial, ancestralidade e, em determinadas narrativas, a matéria da formação humana.
Águas primordiaisCondição inicial presente em narrativas da formação da Terra.
Oxum e IemanjáDiferentes manifestações sagradas das águas, da fertilidade e da maternidade.
OlokunProfundezas do mar em tradições iorubás.
OssainConhecimento das folhas e das forças vegetais.
OxóssiFloresta, caça e obtenção de recursos para a sobrevivência.
IrokoÁrvore sagrada, ancestralidade e tempo, conforme a tradição.
Xangô e IansãTrovões, ventos, tempestades e forças de transformação.
OriIndividualidade espiritual, destino e orientação da pessoa.
AxéPotência sagrada relacionada à realização e à continuidade da existência.

É importante observar que essa tabela não representa uma lista única e definitiva de participantes de um mesmo episódio da Criação. Ela reúne personagens, conceitos e forças que ajudam a explicar a cosmologia iorubá e sua presença em diferentes tradições do Candomblé.

15. O Ensinamento da Criação no Candomblé

A Criação, na perspectiva religiosa do Candomblé, ensina que a existência é formada por relações entre forças distintas, que não precisam ser compreendidas como rivais ou independentes.

A Terra precisa de água, a vegetação depende do solo, os seres humanos dependem da natureza e a vida se desenvolve por meio de relações e transformações. Cada Orixá possui atribuições próprias, que podem se complementar na compreensão do Universo.

O sagrado não está necessariamente separado da natureza. Rios, mares, florestas, árvores, minerais, ventos e outros elementos podem manifestar dimensões religiosas profundas. Isso não significa que sejam apenas símbolos: dentro das tradições, esses elementos se relacionam com divindades, práticas, interdições, conhecimentos e fundamentos específicos.

A Criação também aponta para a responsabilidade humana. Existir significa participar de uma realidade que exige respeito, equilíbrio e reconhecimento dos vínculos entre os seres.

Para o Candomblé, conhecer os Orixás não é apenas aprender seus nomes e atributos. É compreender as relações que sustentam a vida, os ensinamentos transmitidos pelos ancestrais e a importância de preservar os fundamentos de cada tradição.

A grande lição da Criação é que a existência não deve ser compreendida apenas como o aparecimento do mundo, mas também como a formação de uma ordem sagrada na qual cada força possui sua importância e cada ser participa de uma rede de relações.

Nota para publicação: este texto foi elaborado como uma apresentação geral da cosmologia iorubá e de sua influência no Candomblé, com atenção às diferenças entre narrativas tradicionais. Para um livro de fundamentos religiosos, recomenda-se complementar a exposição com itãs específicos e ensinamentos da nação e da linhagem que orientam a obra, evitando tratar versões diferentes como se fossem uma única doutrina universal.

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